quinta-feira, 17 de novembro de 2011

9h53


Quarenta e nove anos, hoje, soa como. . . Quarenta e nove anos, hoje, soa como um sino. Mesmo com a velha fraqueza na cabeça [intelectualmente, dizem que sou esquizofrênico], eu tenho agora todas as razões para suspeitar que comemorei uma ocasião terrível: mais um ano sem Marina. Lembro-me dos últimos anos nesta casa. Nem uma alma. Sentava-me diante do fogo com os olhos fechados. Anotava algumas coisas nas costas dos envelopes. Lamento dizer que me envolvi com apenas três mulheres em três anos... com dificuldade, me abstive da quarta [ou ela se absteve de mim]. Coisa fatal agora para um homem com a minha condição. blá, blá, blá. Fodam-se! É bom estar de volta em meu escritório, em meus trapos velhos. A nova luz sobre a minha mesa é uma grande melhora! Com toda esta escuridão ao meu redor me sinto menos só. De certa forma. Gosto de me levantar e de me mover nesta mesa e, em seguida, voltar aqui.

sábado, 27 de agosto de 2011

Formação


Quando os portugueses chegaram ao continente americano encontraram uma terra já amplamente habitada. A sociedade brasileira estava dividida em tribos de índios. De uma forma geral, eles poderiam ser classificados em dois grandes grupos: os tupi-guaranis ou tupinambás e os aimorés, sendo que estes últimos viviam em áreas mais fechadas, no interior das florestas densas.

O primeiro contato português com os indígenas em terras brasileiras foi com os Tupis, que habitavam toda a região de Mata Atlântica na costa do atual estado da Bahia. De acordo com os relatos daqueles homens, não foi difícil o contato com os Tupis, que eram dóceis e fáceis de "amançar". No entanto, os colonizadores tiveram problemas com um povo indígena em questão: os índios denominados botocudos, grupos aimorés que viviam em conflitos constantes com os Tupis.

A denominação "botocudos" foi feita pelos próprios portugueses. Os adornos que os botocudos usam nas orelhas e no lábio inferior, se assemelhavam, aos olhos lusitanos, a rolhas, também chamadas de botoques.

Os botocudos, na época do "descobrimento", viviam em diversas partes do país, mas começaram a ser incomodados no Baixo Recôncavo Baiano, por conta da divisão do territorio em capitanias, feita pela coroa portuguesa. O objetivo era explorar o espaço e, para isso, era preciso civilizar os "selvagens".

Os Tupis estavam, de certa forma, mais abertos às novidades do povo branco. Os botocudos, no entanto, representavam um problema para os colonos. De acordo com cartas enviadas ao rei d. João VI, os administradores das capitanias não viam outra solução para civilizar o território que não fosse exterminar os botocudos, considerados extremamente selvagens e agressivos. Também possuíam a peculiaridade da antropofagia. Não era possível chegar até eles com vida. Eles conheciam seu território e atocaiavam os intrusos. Os botocudos não permitiam que chegassem perto e muito menos q aparecessem com "presentes". Por isso mesmo, os jesuítas começaram a catequizar os Tupis e estes futuramente foram instruídos a entrar em contato com os botocudos.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Opiário


É antes do ópio que a minh'alma é doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.

Esta vida de bordo há-de matar-me.
São dias só de febre na cabeça
E, por mais que procure até que adoeça,
já não encontro a mola pra adaptar-me.

Em paradoxo e incompetência astral
Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,
Onda onde o pundonor é uma descida
E os próprios gozos gânglios do meu mal.

É por um mecanismo de desastres,
Uma engrenagem com volantes falsos,
Que passo entre visões de cadafalsos
Num jardim onde há flores no ar, sem hastes.

Vou cambaleando através do lavor
Duma vida-interior de renda e laca.
Tenho a impressão de ter em casa a faca
Com que foi degolado o Precursor.

Ando expiando um crime numa mala,
Que um avô meu cometeu por requinte.
Tenho os nervos na forca, vinte a vinte,
E caí no ópio como numa vala.

Ao toque adormecido da morfina
Perco-me em transparências latejantes
E numa noite cheia de brilhantes,
Ergue-se a lua como a minha Sina.

Eu, que fui sempre um mau estudante, agora
Não faço mais que ver o navio ir
Pelo canal de Suez a conduzir
A minha vida, cânfora na aurora.

Perdi os dias que já aproveitara.
Trabalhei para ter só o cansaço
Que é hoje em mim uma espécie de braço
Que ao meu pescoço me sufoca e ampara.

E fui criança como toda a gente.
Nasci numa província portuguesa
E tenho conhecido gente inglesa
Que diz que eu sei inglês perfeitamente.

Gostava de ter poemas e novelas
Publicados por Plon e no Mercure,
Mas é impossível que esta vida dure.
Se nesta viagem nem houve procelas!

A vida a bordo é uma coisa triste,
Embora a gente se divirta às vezes.
Falo com alemães, suecos e ingleses
E a minha mágoa de viver persiste.

Eu acho que não vale a pena ter
Ido ao Oriente e visto a índia e a China.
A terra é semelhante e pequenina
E há só uma maneira de viver.

Por isso eu tomo ópio. É um remédio
Sou um convalescente do Momento.
Moro no rés-do-chão do pensamento
E ver passar a Vida faz-me tédio.

Fumo. Canso. Ah uma terra aonde, enfim,
Muito a leste não fosse o oeste já!
Pra que fui visitar a Índia que há
Se não há Índia senão a alma em mim?


Sou desgraçado por meu morgadio.
Os ciganos roubaram minha Sorte.
Talvez nem mesmo encontre ao pé da morte
Um lugar que me abrigue do meu frio.

Eu fingi que estudei engenharia.
Vivi na Escócia. Visitei a Irlanda.
Meu coração é uma avòzinha que anda
Pedindo esmola às portas da Alegria.

Não chegues a Port-Said, navio de ferro!
Volta à direita, nem eu sei para onde.
Passo os dias no smokink-room com o conde -
Um escroc francês, conde de fim de enterro.

Volto à Europa descontente, e em sortes
De vir a ser um poeta sonambólico.
Eu sou monárquico mas não católico
E gostava de ser as coisas fortes.

Gostava de ter crenças e dinheiro,
Ser vária gente insípida que vi.
Hoje, afinal, não sou senão, aqui,
Num navio qualquer um passageiro.

Não tenho personalidade alguma.
É mais notado que eu esse criado
De bordo que tem um belo modo alçado
De laird escocês há dias em jejum.

Não posso estar em parte alguma.
A minha Pátria é onde não estou. Sou doente e fraco.
O comissário de bordo é velhaco.
Viu-me co'a sueca... e o resto ele adivinha.

Um dia faço escândalo cá a bordo,
Só para dar que falar de mim aos mais.
Não posso com a vida, e acho fatais
As iras com que às vezes me debordo.

Levo o dia a fumar, a beber coisas,
Drogas americanas que entontecem,
E eu já tão bêbado sem nada! Dessem
Melhor cérebro aos meus nervos como rosas.

Escrevo estas linhas. Parece impossível
Que mesmo ao ter talento eu mal o sinta!
O fato é que esta vida é uma quinta
Onde se aborrece uma alma sensível.

Os ingleses são feitos pra existir.
Não há gente como esta pra estar feita
Com a Tranqüilidade. A gente deita
Um vintém e sai um deles a sorrir.

Pertenço a um gênero de portugueses
Que depois de estar a Índia descoberta
Ficaram sem trabalho. A morte é certa.
Tenho pensado nisto muitas vezes.

Leve o diabo a vida e a gente tê-la!
Nem leio o livro à minha cabeceira.
Enoja-me o Oriente. É uma esteira
Que a gente enrola e deixa de ser bela.

Caio no ópio por força. Lá querer
Que eu leve a limpo uma vida destas
Não se pode exigir. Almas honestas
Com horas pra dormir e pra comer,

Que um raio as parta! E isto afinal é inveja.
Porque estes nervos são a minha morte.
Não haver um navio que me transporte
Para onde eu nada queira que o não veja!

Ora! Eu cansava-me o mesmo modo.
Qu'ria outro ópio mais forte pra ir de ali
Para sonhos que dessem cabo de mim
E pregassem comigo nalgum lodo.

Febre! Se isto que tenho não é febre,
Não sei como é que se tem febre e sente.
O fato essencial é que estou doente.
Está corrida, amigos, esta lebre.

Veio a noite. Tocou já a primeira
Corneta, pra vestir para o jantar.
Vida social por cima! Isso! E marchar
Até que a gente saia pla coleira!

Porque isto acaba mal e há-de haver
(Olá!) sangue e um revólver lá pró fim
Deste desassossego que há em mim
E não há forma de se resolver.

E quem me olhar, há-de-me achar banal,
A mim e à minha vida... Ora! um rapaz...
O meu próprio monóculo me faz
Pertencer a um tipo universal.

Ah quanta alma viverá, que ande metida
Assim como eu na Linha, e como eu mística!
Quantos sob a casaca característica
Não terão como eu o horror à vida?

Se ao menos eu por fora fosse tão
Interessante como sou por dentro!
Vou no Maelstrom, cada vez mais pró centro.
Não fazer nada é a minha perdição.

Um inútil. Mas é tão justo sê-lo!
Pudesse a gente desprezar os outros
E, ainda que co'os cotovelos rotos,
Ser herói, doido, amaldiçoado ou belo!

Tenho vontade de levar as mãos
À boca e morder nelas fundo e a mal.
Era uma ocupação original
E distraía os outros, os tais sãos.

O absurdo, como uma flor da tal Índia
Que não vim encontrar na Índia, nasce
No meu cérebro farto de cansar-se.
A minha vida mude-a Deus ou finde-a ...

Deixe-me estar aqui, nesta cadeira,
Até virem meter-me no caixão.
Nasci pra mandarim de condição,
Mas falta-me o sossego, o chá e a esteira.

Ah que bom que era ir daqui de caída
Pra cova por um alçapão de estouro!
A vida sabe-me a tabaco louro.
Nunca fiz mais do que fumar a vida.

E afinal o que quero é fé, é calma,
E não ter estas sensações confusas.
Deus que acabe com isto! Abra as eclusas —
E basta de comédias na minh'alma!

(No Canal de Suez, a bordo)








Álvaro de Campos

segunda-feira, 9 de agosto de 2010





O observar e o reconhecer. Avistei, decodifiquei a imagem. E fui andando em transe. Traçando os meus passos, as pessoas ficando pra trás e a presença aumentando. Segurei a presença com um abraço. Um abraço daqueles q saem um braço pra cima o outro pra baixo. Um no ombro, outro na cintura. Por alguns segundos foi "meu", novamente, aquele tronco. Mas um grupo de pessoas q chegava [com o mesmo álibi q eu] exigia espaço, o espaço entre os meus braços e caixa toráxica [e a presença foi diminuindo.] Passaram-se horas, os joguinhos da "gente esperta do sul", coisas em comum [coisas?], perguntas e respostas. {[(Socializem! Valendo!)]} [...] E terminou a nossa conversinha burocrática com um "vou ali".

domingo, 18 de julho de 2010

Her kind











I have gone out, a possessed witch,
haunting the black air, braver at night;
dreaming evil, I have done my hitch
over the plain houses, light by light:
lonely thing, twelve-fingered, out of mind.
A woman like that is not a woman, quite.
I have been her kind.

I have found the warm caves in the woods,
filled them with skillets, carvings, shelves,
closets, silks, innumerable goods;
fixed the suppers for the worms and the elves:
whining, rearranging the disaligned.
A woman like that is misunderstood.
I have been her kind.

I have ridden in your cart, driver,
waved my nude arms at villages going by,
learning the last bright routes, survivor
where your flames still bite my thigh
and my ribs crack where your wheels wind.
A woman like that is not ashamed to die.
I have been her kind.







Anne Sexton

terça-feira, 1 de junho de 2010

20h18

Atravesso a Praça Sete. Na Rua Tupinambás, o passeio tem símbolos nazistas, na altura do Café Palhares. As pessoas não ligam. Estão muito ocupadas para prestar a atenção nisso. Têm q pegar o ônibus. Eu? Eu preciso arranjar a grana do Rui. A racionalidade através do corpo é tão cara. R$ 20 reais por vivência e se for sua primeira sessão, a segunda será R$ 15. Eu nunca pensei a racionalidade através do corpo. O corpo como Deus, o corpo como Bíblia. Ando tão desconfiada pra fazer parte do que quer que seja. Mas gostei da casa, da Kátia, da Ana, do Lucas, do André, das buscas deles. Gostei da horta, do fogão a lenha, dos tipos punks que moram lá, tão doces, alguns ariscos. Gostei até da fossa. Gostei da conversa com o menino de nome bíblico que não lembro. Ele picava cebolas na cozinha e conversava comigo sobre a pedagogia Waldorf. A cozinha possuia uma grande abertura que dava para sala, onde eu estava com a Kátia e o Israel. Ele pretende voltar a estudar pedagogia, por enquanto quer curtir a vida loca. De onde eu estava, o ácido da cebola me fazia chorar. Ele me disse q só enxerga de um olho, por isso 50% a mais de tolerância pra ele.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Cartas do yage

Querido Allen,
Ontem à noite, tomei o resto da mistura de yage que trouxe de Pucallpa. Não adianta levá-la para os Estados Unidos. Não se conserva mais do que alguns dias. Esta manhã, ainda viajando. Foi isso que aconteceu comigo. Yage é uma viagem espaço-tempo. O quarto parece sacudir e vibrar com movimento. O sangue e a essência de muitas raças: negros, polinésios, mongóis da montanha, nômades do deserto, poligotes do Oriente Próximo, índios, novas raças ainda não determinadas e por nascer e combinações ainda não descobertas passam através do meu corpo. Migrações, incríveis viagens através de desertos, florestas e montanhas (marasmo e morte em estreitos vales montanhosos onde plantas brotam da pedra e enormes crustáceos eclodem e quebram a concha do corpo), através do Pacífico num catamarã para a Ilha da Páscoa. A Cidade Composta onde todos os potenciais humanos estão espalhados num vasto e silencioso mercado. [...] Um lugar onde o passado desconhecido e o futuro emergente se encontram num zumbido vibrante e sem som.


[...]Querido Allen,
Não há nada a temer. Vaya adelante. Olha. Escuta. Ouve. Tua consciência ayahuaski é mais válida que a “consciência normal”? “Consciência normal” de quem? Por que voltar a ela?






William Burroughs




Obs: *yage = bebida usada pelos índios na nascente do rio Amazonas à qual atribuem poderes sensoriais e anestésicos.

domingo, 30 de maio de 2010

Cartas do yage

[...] e nada de humano é estranho ou chocante ao sul-americano. Estou falando do melhor sul-americano, parte índio, parte branco e parte sabe-Deus-o-quê. Ele não é, como se pensa a princípio, fundamentalmente oriental, mas também não pertence ao ocidente. É algo especial, como nenhuma outra coisa. Sua expressão tem sido bloqueada pelos espanhóis e pela Igreja Católica. Precisamos de um novo Bolívar que realmente termine o serviço. Eu acho que é este o objetivo da Guerra Civil Colombiana - o rompimento fundamental entre o Potencial Sul-americano e a Repressão Hispânica dos Tabus que temem a vida. Nunca me senti apoiando tanto um lado e tão incapaz de ver qualquer característica inovadora no outro. A América do Sul é uma mistura de linhagens, todas necessárias para gerar a forma potencial. Sabem que precisam de sangue branco - mito do Deus Branco - e o que conseguiram foram os malditos espanhóis. Mas tiveram a vantagem de sua fraqueza. Nunca tirariam os ingleses daqui. Teriam criado aquela atrocidade conhecida como País do Homem Branco.



William Burroughs

sexta-feira, 28 de maio de 2010

1s

estava a rir sem causas de rir, por conta do acaso que é a vida. me deparei com o texto q lia e relia, anos atrás, numa despreocupação, sem nada do q agora pulsa em mim, toda vez q vejo aquela assinatura. a descrição sobre atores, platéia, desejos e fluidos é milimétrica, inesquecível e passa por curvas perigosíssimas, sem dó. foi o q me chamou a atenção àquele texto. Anos depois conheci o autor [...] ao ler de novo, hoje [...] ele se tornou outra coisa, mais uma. lembrei do tempo em que aquele nome não significava nada. tive uma fome metafísica daquele tempo.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

sobre o direito da dúvida: uma das mais recentes invenções dos homens (seres humanos)

Escrever desse jeito é colocar a própria língua pra fora. Um ato desnecessário. No entanto, sei que os debates são essenciais para a elevação do espírito. E ainda assim, também sei que estou sã, na medida em que me sinto constrangida com um ato desnecessário, que é colocar a própria língua pra fora. Com a língua pra fora, penso que continua tudo aquilo q não está, que fugiu pela rua, q correu da cabeça. Como se estivesse aqui a água que preenche as fórmulas mágicas da felicidade, aqui nos meus dedos, nas voltas do l pro j. Das letras do teclado para a virtualidade[?] [...] Duvido, aliás, duvido muito. Escrevo pensando que duvido até do que escrevo e, mais ainda, das idéias particulares dos outros. O que não me desobriga colocar a língua pra fora e me constranger, porque ainda estou sã.





In: _______. Mais uma vez. 4ª ed. 2010

terça-feira, 18 de maio de 2010

fragmento

um soco
sabor metálico na boca
o suco escorre
e a dança derrama
cabelos na testa
vai-se a bolsa

o mar de suor
pelo esforço
pelo pano
pelo plástico
e pelo papel
obriga: fixa os olhos nas nuvens
no ritmo do vento
põe a mão no ferimento
separa os cabelos em duas mechas
veja a paisagem
a tonalidade azul do céu

foi-se a bolsa vazia
do que lhe é mais precioso
tanto que desafia
_Venha rapaz
tente
pegue a minha cumplicidade com o silêncio
deixe os farrapos.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

tipos em tipos

Talvez. Um fim sem começo [meu acaso], um tropeço[?]. Uns olhos enviesados, formatados para a loucura. Uma forma de ver as cores, particular, uma disfunção[?]. As cores no quarto e nos cactus, um vácuo sem sentido, um segundo no ar por mil anos, [...] em diamantina, na cachoeira, com pão-de-queijo, gatinho ronronando, paisagem-verde-absoluta-solar, o sol. Olhinho azul e conversinha. Bichos adoráveis, sogrinha, rodriguinho, um deixar morrer no decorrer e no fim não há morte. Insiste, abre as janelas das salas. a impressão é de sol de abril. de planta no vaso de terra e de chuva. e de mar.

domingo, 27 de dezembro de 2009

segundo andar

Saíram pra passear, lá onde não sabem onde estão. Sentaram e tomaram uma cerveja. Aproveitaram a companhia um do outro, aquela cumplicidade que só existia com o silêncio. Quem são agora? Quem são ela e ele? Marina ficou confusa, a costumeira paranóia.
Pediram a conta e subiram pro samba da esquina. Ainda havia tempo. Em dia de semana, não havia mesa. Algo que pouco lhe importava. Só não queria deixá-lo ir.
Dentro da casinha avermelhada, um chorinho romântico de partir o coração emabalava a dança de uma baiana sem sotaque. Uma baiana que divide com eles sua mesa. Uma baiana branca e loira de araque. Divide com Marina, num momento de socialização feminina, a forte pegada do rapaz de dread, com quem dança lindamente, pra lá e pra cá, com todo aquele cabelo loiro.
Marina achava lindo o jeito como dançavam. Encaixadinhos um no outro... Cobertos de suor, brilhavam.
Enquanto o choro lhe entrava na cabeça, Marina percebeu que lhe diziam algo - que ela não se lembraria, mas se lembraria dos sorrisos. Espiou. Temeu ficar presa àquela atmosfera, àquela manhã; eles se convertendo nas histórias que escreviam, dançando na cozinha e pintando as paredes de azul, criando a impressão de continuidade com o céu.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Summertimes


A caminhada leva a lugares sombrios e quase sem notar acostuma-se com o cheiro da cidade grande, a mistura de café da manhã, suor e os primeiros raios do sol acompanhados pelo ar vindo das montanhas e dos morros que cercam Belo Horizonte. Na noite anterior dormi muito pouco. Agora preciso de respostas oníricas para os meus sentimentos. Sinto as novas realidades do meu ser olhando pela janela, as meninas de shortinho perdidas entre as sombras dos muros, cheias de anfetaminas e vidas no ventre. Cheias de calafrios e espasmos. As pupílas dilatadas. Não querem ficar em paz. E a manhã chega fria e calma.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

karma

Os krenak sempre lutaram e sempre foram vítimas do governo colonial. O cocar pendurado na sala nos impõe a tradição. Sempre obrigados a se deslocar, a sair de seu lugar de origem. Por lei, um bom pedaço da Mata Atlântica, no Baixo Recôncavo Baiano, seria meu, mas não o tendo, somente sigo o meu Karma. A Bisa tinha botoques nos lábios e nas orelhas, mas a Vó não. Fora da comunidade as tradições já não eram fortes nela. Por isso a Vó não recebeu os enfeites. O que não a livrou dos presságios de morte. Ela sempre sabia. Até de sua própria morte. E quando ela morreu, levou os espíritos guerreiros que a atormentavam e as histórias das indiazinhas desobedientes. A Vó falava um pouco o Borun. Talvez estivesse ali um segredo. Ininteligível.